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Para jornalista canadense que prepara livro sobre relações públicas e mídia, a imprensa se tornou refém dos assessores de comunicação

Por Yan Boechat


Produtor executivo de alguns dos mais importantes programas jornalísticos da CBC Radio One, a principal estação de notícias da premiada estatal canadense, Iran Basen vem se dedicando nos últimos anos a estudar a delicada relação entre assessores de imprensa e a mídia. Em seu novo livro sobre o tema, o jornalista pretende mostrar como o enxugamento das redações e o crescente profissionalismo das empresas de relações públicas estão tornando a imprensa refém de uma crescente indústria que tem como objetivo principal disseminar notícias em favor de seus clientes. O livro de Ira Basen - que também é ex-professor dos departamentos de jornalismo das universidades canadenses Ryerson e de Toronto - será lançado em 2006 nos Estados Unidos e Canadá pel Penguin Books.

>Foco Há quem diga que a mídia está lutando uma guerra desigual com os assessores de imprensa. O senhor concorda com isso?

>>Ira Basen Não sei se é uma guerra desigual, mas com certeza é difícil de ser vencida. Hoje existem bem mais assessores de imprensa do que jornalistas em redações e essa diferença está crescendo rapidamente. A maioria das empresas de comunicação está cortando seus gastos, mas a demanda por conteúdo informativo não pára de crescer. A cada dia surgem novas TVs, estações de rádio, jornais, sem contar a explosão da mídia digital. Por outro lado, o número de jornalistas para produzir esse conteúdo só tem diminuído. Isso abre uma grande oportunidade para as assessorias de imprensa colocarem o que for interessante para elas em jornais, revistas, TVs ou websites com uma incrível facilidade.

>Foco Houve uma mudança na relação entre as assessorias de imprensa e a mídia?

>>Basen Acredito que políticos, empresas e todos que lidam diretamente com o público estão muito mais conscientes hoje do que a 20 anos sobre a importância de dizer apenas o que eles querem que o público saiba. Todos estão muito mais conscientes do poder da mídia. Isso provavelmente começou a ganhar corpo com o Watergate, quando dois jornalistas derrubaram um presidente americano, e tem crescido continuamente desde então. O resultado é que mais e mais pessoas estão sendo treinadas como profissionais e aprendendo a dizer apenas aquilo que eles querem que seja dito. Há muita estratégia de comunicação e pouca comunicação real, o que faz o trabalho dos jornalistas incrivelmente mais difícil para transmitir a verdade, ou algo próximo dela.

>Foco As empresas de comunicação corporativa se tornam cada vez mais importantes no Brasil, como em outros países. As companhias estão trocando o marketing tradicional pela mídia espontânea?

>>Basen O marketing tradicional, que conhecemos como propaganda, é caro, não tem tanta credibilidade e nem sempre é efetivo. Usar as relações com a imprensa como ferramenta de marketing é consideravelmente mais barato e as pessoas ainda tendem a acreditar no que eles lêem na imprensa. Qualquer coisa que você fale sobre si tende a ter menos credibilidade do que se alguém não ligado a você disser. Melhor ainda se, especificamente, um jornalista independente endossar seu produto. Suas vantagens ficam bem mais críveis.

>Foco Existe alguma maneira para o leitor conseguir identificar o uso da mídia pelos grupos de comunicação corporativa?

>>Basen É bastante difícil. A maioria dos leitores não entende exatamente como as assessorias de imprensa influenciam a produção de notícias. Os leitores deveriam tentar ver se o repórter está trazendo algum ponto de vista crítico à reportagem e ficar bastante alertas quando surgirem fontes que preferem não ser identificadas. Ainda assim, a possibilidade de se ler ou assistir a uma matéria manipulada é grande.

>Foco Como as novas tecnologias estão mudando essas relações entre assessores de imprensa e mídia?

>>Basen Os assessores ainda estão tentando entender como a internet afetará seus negócios. Já existe muita discussão sobre produtos nos blogs. Por isso, muitos assessores estão tentando encontrar uma maneira de fazer com que esses blogs, que são teoricamente independentes, falem bem a respeito de seus produtos. Muita coisa ainda vai acontecer nessa área.


Fonte: Revista Foco Economia e Negócios, 01/05/05, Pg. 55